Eu sou uma antologia
Que, pouca ou muita valia
Dos poemas, ninguém diria
Que o poeta é um somente.
Se ele não tem a completa
Não é poeta, é só alguém.
Eu graças a Deus não tenho
Fernando Pessoa
13-12-1932
Pessoa por Conhecer
- Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes.
Lisboa: Estampa, 1990.
- 94.
Almada Negreiros, Retrato de Fernando Pessoa, 1964. Coleção CAM, FCG, Lisboa
Fernando
António Nogueira Pessoa
mais
conhecido como Fernando Pessoa,
É
considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, e da Literatura Universal,
muitas vezes comparado com Luís de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou a sua obra um "legado
da língua portuguesa ao mundo".
Por
ter sido educado na África do Sul,
para onde foi aos seis anos em virtude do casamento de sua mãe, Pessoa aprendeu
perfeitamente o inglês, língua em que escreveu poesia e prosa desde a
adolescência. Das quatro obras que publicou em vida, três são na língua inglesa.
Fernando Pessoa traduziu várias obras inglesas para português e obras
portuguesas (nomeadamente de António Botto e Almada Negreiros)
para inglês.
Ao
longo da vida trabalhou em várias firmas comerciais de Lisboa como
correspondente de língua inglesa e francesa. Foi também empresário, editor, crítico
literário, jornalista, comentador político, tradutor, inventor, astrólogo e
publicitário, ao mesmo tempo que produzia a sua obra literária em verso e em prosa. Como poeta, desdobrou-se
em múltiplas personalidades conhecidas como heterónimos,
objeto da maior parte dos estudos sobre sua vida e sua obra. Centro irradiador
da heteronímia,
auto-denominou-se um "drama em gente".
Não sei quantas almas tenho
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.
Considera-se
que a grande criação estética de Pessoa foi a invenção heteronímica que
atravessa toda a sua obra. Os heterónimos,
diferentemente dos pseudónimos,
são personalidades poéticas completas: identidades que, em princípio falsas, se
tornam verdadeiras através da sua manifestação artística própria e diversa do
autor original. Entre os heterónimos, o próprio Fernando Pessoa passou a ser
chamado ortónimo,
porquanto era a personalidade original. Entretanto, com o amadurecimento de
cada uma das outras personalidades, o próprio ortónimo tornou-se apenas mais um
heterónimo entre os outros. Os três heterónimos mais conhecidos (e também
aqueles com maior obra poética) foram Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro.
Um quarto heterónimo de grande importância na obra de Pessoa é Bernardo Soares,
autor do Livro do Desassossego, importante obra
literária do século XX. Bernardo é considerado um semi-heterónimo por ter
muitas semelhanças com Fernando Pessoa e não possuir uma personalidade muito
característica, ao contrário dos três primeiros, que possuem até mesmo data de
nascimento e morte (excepção para Ricardo Reis, que não possui data de
falecimento). Por essa razão, José Saramago,
laureado com o Prémio Nobel,
escreveu o livro O ano da morte de Ricardo Reis.
"A origem mental dos meus
heterônimos está na minha tendência orgânica para a despersonalização e para a
simulação."
Através
dos heterónimos, Pessoa conduziu uma profunda reflexão sobre a relação entre verdade, existência e identidade.
Este último fator possui grande notabilidade na famosa misteriosidade do poeta.
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Com
uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de
sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou quando menos, os seus
companheiros de espírito?
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Diversos
estudiosos de Pessoa procuraram enumerar seus pseudónimos, heterónimos, semi-heterónimos,
personagens fictícias e poetas mediúnicos. Em 1966 a portuguesa Teresa Rita
Lopes fez um primeiro
levantamento, com 18 nomes. Antonio Pina Coelho,
também português, elevou em seguida a relação para 21. A mesma Teresa Rita Lopes
apresentou um levantamento mais detalhado em 1990, chegando a 72 nomes. Em 2009 o holandês Michaël Stoker chegou a 83 heterónimos. Mais
recentemente, o brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho,
utilizando critério mais amplo, apresentou uma lista com 127 nomes.
"não há que buscar em qualquer
deles (dos heterônimos) idéias ou sentimentos meus, pois que muitos deles
exprimem idéias que não aceito, sentimentos que nunca tive. Há simplesmente que
os ler como estão, que é aliás como se deve ler"
Álvaro de Campos
TABACARIA
Não
sou nada.
Nunca
serei nada.
Não
posso querer ser nada.
À
parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas
do meu quarto,
Do
meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E
se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais
para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para
uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real,
impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com
o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com
a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com
o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
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Álvaro de Campos: "Tabacaria" (excerto)
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Entre
todos os heterónimos,
Campos foi o único a manifestar fases poéticas diferentes ao longo da sua obra.
Era um engenheiro de educação inglesa e origem portuguesa, mas sempre com a
sensação de ser um estrangeiro em qualquer parte do mundo.
Começa
a sua trajetória como um decadentista (influenciado pelo simbolismo),
mas logo adere ao futurismo.
Após uma série de desilusões com a existência, assume uma veia niilista,
expressa naquele que é considerado um dos poemas mais conhecidos e influentes
da língua portuguesa, Tabacaria.
É revoltado e crítico e faz a apologia da velocidade e da vida moderna, com uma
linguagem livre, radical.
Eu, eu mesmo...
Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar.—
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que
parece,
Me saíram da algibeira para
deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...
Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem
dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
A vida que pare de aqui a
pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...
Álvaro de Campos
4-1-1935
Poesias de Álvaro de
Campos.
Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
- 76.
Ricardo Reis
O
heterónimo Ricardo Reis é descrito como um médico que se definia como latinista e monárquico.
De certa maneira, simboliza a herança clássica na literatura ocidental,
expressa na simetria,
na harmonia e num certo bucolismo,
com elementos epicuristas e estóicos.
O fim inexorável de todos os seres vivos é uma constante na sua obra, clássica,
depurada e disciplinada. Faz uso da mitologia não-cristã.
Segundo
Pessoa, Reis mudou-se para o Brasil em protesto à proclamação da República em Portugal e não se sabe o ano da sua
morte.
Em O ano da morte de Ricardo Reis, José Saramago continua, numa perspectiva pessoal, o
universo deste heterónimo após a morte de Fernando Pessoa, cujo fantasma
estabelece um diálogo com o seu heterónimo, sobrevivente ao criador.
Enquanto eu vir o sol luzir nas folhas
Enquanto eu vir o sol luzir nas
folhas
E sentir toda a brisa nos
cabelos
Não quererei mais nada.
Que me pode o Destino conceder
Melhor que o lapso sensual da
vida
Entre ignorâncias destas?
Sábio deveras o que não
procura,
Que, procurando, achara o
abismo em tudo
E a dúvida em si mesmo.
Pomos a dúvida onde há rosas.
Damos
Quase tudo do sentido a
entendê-lo
E ignoramos, pensantes.
Estranha a nós a natureza
extensa
Campos ondula, flores abre,
frutos
Cora, e a morte chega.
Terei razão, se a alguém razão
é dada,
Quando me a morte conturbar a
mente
E já não veja mais
Que à razão de saber porque
vivemos
Nós nem a achamos nem achar se
deve,
Impropícia e profunda.
Ricardo Reis
16-6-1927
Poemas de
Ricardo Reis. Fernando
Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional -
Casa da Moeda, 1994.
- 119.
Alberto Caeiro
Por
sua vez, Caeiro, nascido em Lisboa, teria vivido quase toda a vida como
camponês, quase sem estudos formais. Teve apenas a instrução primária, mas é
considerado o mestre entre os heterónimos (pelo ortónimo). Depois da morte do
pai e da mãe, permaneceu em casa com uma tia-avó, vivendo de modestos
rendimentos e morreu de tuberculose.
Também é conhecido como o poeta-filósofo, mas rejeitava este título e pregava
uma "não-filosofia". Acreditava que os seres simplesmente são, e nada mais: irritava-se
com a metafísica e qualquer tipo de simbologia para a
vida.
Os
escritos pessoanos que versam sobre a caracterização dos heterónimos,
"Pessoa-ele-mesmo", Álvaro de Campos, Ricardo Reis e o
meio-heterónimo Bernardo Soares, conferem a Alberto Caeiro um papel quase
místico, enquanto poeta e pensador. Reis e Soares chegam a compará-lo ao deus Pã, e Pessoa esboça-lhe um
horóscopo no qual lhe atribui o signo de leão,
associado ao elemento fogo. A relevância destas
alusões advém da explicação de Fernando Pessoa sobre o papel de Caeiro no
escopo da heteronímia. Citando a atuação dos quatro elementos da astrologia sobre a personalidade dos indivíduos,
Pessoa escreve:
"Uns
agem sobre os homens como o fogo, que queima nele todo o acidental, e os deixa
nus e reais, próprios e verídicos, e esses são os libertadores. Caeiro é dessa
raça, Caeiro teve essa força."
Dos
principais heterónimos de Fernando Pessoa, Caeiro foi o único a não escrever em prosa. Alegava que
somente a poesia seria capaz de dar conta da realidade.
Possuía
uma linguagem estética direta, concreta e simples mas, ainda assim, bastante
complexa do ponto de vista reflexivo. O seu ideário resume-se no verso Há metafísica bastante em não
pensar em nada. A sua obra está agrupada na coletânea Poemas Completos de Alberto Caeiro.
FELICIDADE
Pastor do monte, tão longe de
mim com as tuas ovelhas —
Que felicidade é essa que pareces ter—a tua ou a minha?
A paz que sinto quando te vejo,
pertence-me, ou pertence-te?
Não, nem a ti nem a mim,
pastor.
Pertence só à felicidade e à
paz.
Nem tu a tens, porque não
sabes que a tens.
Nem eu a tenho, porque sei
que a tenho.
Ela é ela só, e cai sobre nós
como o sol,
Que te bate nas costas e te
aquece, e tu pensas noutra coisa indiferentemente,
E me bate na cara e me
ofusca, e eu só penso no sol.
12-4-1919
“Poemas
Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota
explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática,
1946 (10ª ed. 1993). - 81.
1ª
publ. in “Poemas Inconjuntos”. In Athena, nº 5. Lisboa: Fev. 1925.
Bernardo Soares
Bernardo
Soares é, dentro da ficção de seu próprio Livro do Desassossego, um simples ajudante de
guarda-livros na cidade de Lisboa. Conheceu Fernando Pessoa numa pequena casa
de pasto freqüentada por ambos. Foi aí que Bernardo deu a ler a Fernando seu
livro, que, mesmo escrito em forma de fragmentos, é considerado uma das obras
fundadoras da ficção portuguesa no século XX.18
Bernardo
Soares é muitas vezes considerado um semi-heterónimo porque, como seu próprio
criador explica:
"Não
sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples
mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afectividade."
A
instância da ficção que se desenvolve no livro é insignificante, porque
trata-se de uma "autobiografia sem factos", como o próprio Fernando
Pessoa situa o livro. Dessa forma, o que interessa em sua prosa fragmentária é
a dramaticidade das reflexões humanas que vêm à tona na insistência de uma
escrita que se reconhece inviável, inútil e imperfeita, à beira do tédio, do
trágico e da indiferença estética. O fato de Fernando Pessoa considerar (em
cartas e anotações pessoais) Bernardo Soares um semi-heterônimo faz pensar na
maior proximidade de temperamento entre Pessoa e Soares. Nesse sentido, para
alguns, o jogo heteronímico ganha em complexidade e Pessoa logra o êxito da
construção de si mesmo como o mais instigante mito literário português na
Modernidade.

Bernardo
Soares
A
mais vil de todas as necessidades — a da confidência,
L. do
D.
A mais
vil de todas as necessidades — a da confidência, a da confissão. E a
necessidade da alma de ser exterior.
Confessa, sim; mas confessa o que não sentes. Livra a tua alma, sim, do peso dos seus segredos, dizendo-os; mas ainda bem que o segredo que dizes, nunca o tinhas dito. Mente a ti próprio antes de dizeres essa verdade. Exprimir(-se) é sempre errar. Sê consciente: exprimir seja, para ti, mentir.
s.d.
Livro do
Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos
de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto
do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.
- 450.
"Fase confessional", segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo
Soares, Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986.