quarta-feira, 30 de outubro de 2013

UMA PIPA NO CÉU...





Uma pipa no céu...

A vida exige leveza, assim como a viagem. A estrada fica mais bonita quando podemos olhá-la sem o peso de malas nas mãos.

Seguir leve é desafio. Há paradas que nos motivam compras, suplementos que julgamos precisar num tempo que ainda não nos pertence, e que nem sabemos se o teremos.

Temos a pretensão de preparar o futuro. Eu tenho. Talvez você tenha também. É bom que a gente se ocupe de coisas futuras, mas tenho receio que a ocupação seja demasiada. Temo que na honesta tentativa de me projetar, eu me esqueça de ficar no hoje da vida.

Os pesos nascem desta articulação. Coisas do passado, do presente e do futuro. Tudo num tempo só.

Há uma cena que me ensina sobre tudo isso. Vejo o menino e sua pipa que não sobe ao céu. Eu o observo de longe. Ele faz de tudo. Mexe na estrutura, diminui o tamanho da rabiola, e nada. O pequeno recorte de papel colorido, preso na estrutura de alguns feixes de bambú retorcidos se recusa a conhecer as alturas.

O menino se empenha. Sabe muito bem que uma pipa só tem sentido se for feita para voar. Ele acredita no que ouviu. Alguém o ensinou o que é uma pipa, e para que serve. Ele acredita no que viu. Alguém já empinou uma pipa ao seu lado. O que ele agora precisa é repetir o gesto. Ele tenta, mas a pipa está momentaneamente impossibilitada de cumprir a função que possui.

Sem desistir do projeto, o menino continua o seu empenho. Busca soluções. Olha para os amigos que estão ao lado e pede ajuda. Aos poucos eles se juntam e realizam gestos de intervenção...

Por fim, ele tenta mais uma vez. O milagre acontece. Obedecendo ao destino dos ventos, a pipa vai se desprendendo das mãos do menino. A linha que até então estava solta vai se esticando. O que antes estava preso ao chão, aos poucos, bem aos poucos, vai ganhando a imensidão do céu.

O rosto do menino se desprende no mesmo momento em que a pipa inicia a sua subida. O sorriso nasceu, floresceu leve, sem querer futuro, sem querer passado. Sorriso de querer só o presente. As linhas nas mãos. A pipa no céu...


Pe. Fábio de Melo








quarta-feira, 23 de outubro de 2013

PECADOS PÚBLICOS



PECADOS PÚBLICOS

Não reclamo. Apenas constato. Tem ficado cada vez mais difícil a gente se reconciliar com os erros cometidos. O motivo é simples. A vida privada acabou. O acontecimento particular passa a pertencer a todos. A internet é um recurso para que isso aconteça. Os poucos minutos noticiados não cairão no esquecimento. Há um modo de fazê-los perdurarem. Quem não viu poderá ver. Repetidas vezes. É só procurar o caminho, digitar uma palavra para a busca.

Tudo tem sido assim. A socialização da notícia é um fato novo, interessantíssimo. Possibilita a informação aos que não estavam diante da TV no momento em que foi exibida.

A internet nos oferece uma porta que nos devolve ao passado. Fico fascinado com a possibilidade de rever as aberturas dos programas do meu tempo de infância. As imagens que permaneciam vivas no inconsciente reencontram a realidade das cores, movimentos e dos sons.

Mas o que fazer quando a imagem disponível refere-se ao momento trágico da vida de uma pessoa? Indigência exposta, ferida que foi cavada pelos dedos pontiagudos da fragilidade humana? Ainda é cedo para dizer. Este novo tempo ainda balbucia suas primeiras palavras.

O certo é que a imagem eterniza o erro, o deslize. Ficará para posteridade. Estará resguardada, assim como o museu resguarda documentos que nos recordam a história do mundo.

Coisas da contemporaneidade. Os recursos tecnológicos nos permitem eternizar belezas e feiúras.

Uma fala sobre o erro. Eles nascem de nossa condição humana. Somos falíveis. É estatuto que não podemos negar. Somos insuficientes, como tão bem sugeriu o filósofo francês, Blaise Pascal. O bem que conhecemos nem sempre atinge nossas ações. Todo mundo erra. Uns mais, outros menos. Admitir os erros é questão de maturidade. Esperamos que todos o façam. É nobre assumir a verdade, esclarecer os fatos. Mais que isso. É necessário assumir as conseqüências jurídicas e morais dos erros cometidos. Não se trata de sugerir acobertamento, nem tampouco solicitar que afrouxem as regras. Quero apenas refletir sobre uma das inadequações que a vida moderna estabeleceu para a condição humana.

Tenho aprendido que o direito de colocar uma pedra sobre o erro faz parte de toda experiência de reconciliação pessoal. Virar a página, recomeçar, esquecer o peso do deslize é fundamental para que a pessoa possa ser capaz de reassumir a vida depois da queda. É como ajeitar uma peça que ficou sem encaixe. O prosseguimento requer adequação dos desajustes. E isso requer esquecer. Depois de pagar pelo erro cometido a pessoa deveria ter o direito de perder o peso da culpa. O arrependimento edifica, mas a culpa destrói.

Mas como perder o malefício do erro se a imagem perpetua no tempo o que na alma não queremos mais trazer? Nasce o impasse. O homem hoje perdoado ainda permanecerá aprisionado na imagem. A vida virtual não liberta a real, mas a coloca na perspectiva de um julgamento eterno. A morbidez do momento não se esvai da imagem. Será recordada toda vez que alguém se sentir no direito de retirar a pedra da sepultura. E assim o passado não passa, mas permanece digitalizado, pronto para reacender a dor moral que a imagem recorda.

Estamos na era dos pecados públicos. Acusadores e defensores se digladiam nos inúmeros territórios da vida virtual. Ambos a acenderem o fogo que indica o lugar onde a vítima padece. A alguns o anonimato encoraja. Gritam suas denúncias como se estivessem protegidos por uma blindagem moral. Como se também não cometessem erros. Como se estivessem em estado de absoluta coerência. No conforto de suas histórias preservadas, empunham as pedras para atacar os eleitos do momento.

O fato é que o pecador público exerce o papel de vítima expiatória social. Nele todas as iras são depositadas porque nele todas as misérias são reconhecidas. No pecado do outro nós também queremos purgar o pecado que está em nós. Em formatos diferentes, mas está. Crimes menores, maiores; não sei. Mas crimes. Deslizes diários que nos recordam que somos território da indigência. O pecador exposto na vitrine deixa de ser organismo. Em sua dignidade negada ele se transforma em mecanismo de purificação coletiva. É preciso cautela. Nossos gritos de indignação nem sempre são sinceros. Podem estar a serviço de nossos medos. Ao gritar a defesa ou a condenação podemos criar a doce e temporária sensação de que o erro é uma realidade que não nos pertence. Assumimos o direito de nos excluir da classe dos miseráveis, porque enquanto o pecador permanecer exposto em sua miséria, nós nos sentiremos protegidos.

Mas essa proteção que não protege é a mãe da hipocrisia. Dela não podemos esperar crescimento humano, nem tampouco o florescimento da misericórdia. Uma coisa é certa. Quando a misericórdia deixa de fazer parte da vida humana, tudo fica mais difícil. É a partir dela que podemos reencontrar o caminho. O erro humano só pode ser superado quando aquele que erra encontra um espaço misericordioso que o ajude a reorientar a conduta.


Nisso somos todos iguais. Acusadores e defensores. Ou há alguém entre nós que nunca tenha necessitado de ser olhado com misericórida?

pe. Fábio de Melo



sábado, 19 de outubro de 2013

PRECONCEITO





Preconceito é uma forma preguiçosa de conhecer!

Pessoas são como diamantes...


Preconceito é uma forma fácil de ter opinião. Não requer esforço, não requer pesquisa, empenho, visto que se trata de uma primeira visão que temos acerca de uma determinada realidade.
É óbvio, mas é bom dizer, que a visão preconceituosa, é aquela que resolveu ficar parada no pré-conceito, isto é, no que vem antes da verdade. Um conceito é sempre o fruto de uma elaboração mais trabalhosa da vida, o pré-conceito não. Ele é uma fase primária do conceito. É por isso que quem gosta de pré-conceitos tende a ficar na imaturidade a vida inteira.
O mesmo se deu conosco quando entramos no pré-primário. Já imaginou se não tivéssemos aceitado o desafio de ir para o primário, com suas dificuldades e diferenças do pré?
Somente o passo em direção ao novo nos garante a felicidade das surpresas. A vida é sempre assim. O que agora é alimento, com o tempo, deixa de sustentar. Isto porque estamos num constante processo de superação humana, e o que nos move, é este desejo de irmos além...
É por isso, que me entusiasmo com a dimensão antropológica do cristianismo. As palavras de Jesus nos encorajam para um constante aperfeiçoamento de nossa humanidade e para a constante superação dos nossos limites. E então, passamos a compreender que santificação é o mesmo que dizer humanização. Retirar os excessos, lapidar as arestas, superar as mesquinharias, os modelos superficiais de análises, os ciúmes e os apegos desordenados, são formas concretas de santificar a nossa vida.
Preconceito é também uma forma de aprisionamento. Olhamos o outro e o definimos a partir do que achamos sobre ele. Temos uma série de opiniões que resolvemos construir dentro de nós, e que são frutos de uma primeira visão. Olhamos e encaixotamos o outro no nosso preconceito . Decidimos que ele é assim, mesmo que nunca tenhamos nos aproximado dele para confirmar o que achamos...
Achamos e perdemos. Perdemos por desperdiçar a oportunidade de superar o conhecimento aparente, e assim quem sabe, ganhar um grande amigo, um grande apoio existencial. Achamos muitas coisas sobre ele. E por achar tanto, resolvemos não buscar a verdade fundamental, e assim deixamos de ganhar. Talvez esse seja um dos grandes pecados do nosso tempo. O mundo é superficial nas suas análises. Basta flagrar uma única atitude, para que o mundo entregue o seu parecer preconceituoso e definitivo.
Jesus se opunha radicalmente a esta postura. Ele gostava de ver além. E alertava os discípulos para este constante cuidado. O cristianismo supera o judaísmo justamente neste ponto. Jesus não queria uma religião que parasse na exterioridade, que dispensasse facilmente as pessoas só porque têm uma aparência ou um histórico que num primeiro momento não nos agrade.
A beleza da vida consiste em olhar o mundo com "olhos de terceira margem", com os olhos de Jesus. Eu, nem sempre consigo, mas não quero perder este esforço de vista. Eu ainda vivo o desconcerto das escolhas de Jesus. Fico indignado quando o vejo escolher Zaqueu em meio a tanta gente santa e de boa índole. Ainda me incomoda quando ele diz que as prostitutas podem me preceder na entrada do Reino.
E então me vejo, com minha maneira rasa e infecunda de esbarrar nas pessoas, de condená-las àquilo que acho sobre elas e de impedi-las de me surpreenderem com sua beleza escondida.
A vida é igual garimpo. Não se percebe o diamante numa primeira olhada. Por ser muito parecido com o cascalho, corre o risco de ser jogado fora. Cascalhos e diamantes se parecem. A única diferença é que o diamante esconde o brilho sob as cascas que o revestem. É preciso lapidar. Pessoas são como diamantes. Corremos o risco de jogá-las fora só porque não tivemos a disposição de olhá-las para além de suas cascas. E então, desperdiçamos grandes riquezas no exercício de alimentar pobrezas.
Quando o meu preconceito me impede de ver o diamante, eu me torno cascalho no mundo. Espero que hoje você descubra diamantes por onde passar. Se descobrir, estará sendo semelhante a Jesus...



A BELA E A FERA - CELINE DION





Todas as Vidas

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé
do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…
Vive dentro de mim
a lavadeira
do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde
de São-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada,
sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
-Enxerto de terra,
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo ser alegre
seu triste fado.
Todas as vidas
dentro de mim:
Na minha vida -
a vida mera
das obscuras!







Mulher da Vida,
Minha irmã.
De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades
e carrega a carga pesada
dos mais torpes sinônimos,
apelidos e ápodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à toa.
Mulher da vida,
Minha irmã.’


(CORA CORALINA - Poemas de Goiás e Estórias Mais, p.201, 1996)





sábado, 5 de outubro de 2013

SOBRE AMOR, ROSAS E ESPINHOS



Sobre amor, rosas e espinhos

 

O amor é equação onde prevalece a multiplicação do perdão

Amor, que é amor, dura a vida inteira. Se não durou é porque nunca foi amor.
O amor resiste à distância, ao silêncio das separações e até às traições. Sem perdão não há amor. Diga-me quem você mais perdoou na vida, e eu então saberei dizer quem você mais amou.
O amor é equação onde prevalece a multiplicação do perdão. Você o percebe no momento em que o outro fez tudo errado, e mesmo assim você olha nos olhos dele e diz: "Mesmo fazendo tudo errado, eu não sei viver sem você. Eu não posso ser nem a metade do que sou se você não estiver por perto".
O amor nos possibilita enxergar lugares do nosso coração os quais sozinhos jamais poderíamos enxergar.
O poeta soube traduzir bem quando disse: "Se eu não te amasse tanto assim, talvez perdesse os sonhos dentro de mim e vivesse na escuridão. Se eu não te amasse tanto assim talvez não visse flores por onde eu vi, dentro do meu coração!"
Bonito isso. Enxergar sonhos que antes eu não saberia ver sozinho. Enxergar só porque o outro me emprestou os olhos, socorreu-me em minha cegueira. Eu possuía e não sabia. O outro me apontou, me deu a chave, me entregou a senha.
Coisas que Jesus fazia o tempo todo. Apontava jardins secretos em aparentes desertos. Na aridez do coração de Madalena, Jesus encontrou orquídeas preciosas. Fez vê-las e chamou a atenção para a necessidade de cultivá-las.
Fico pensando que evangelizar talvez seja isso: descobrir jardins em lugares que consideramos impróprios. Os jardineiros sabem disso. Amam as flores e por isso cuidam de cada detalhe, porque sabem que não há amor fora da experiência do cuidado. A cada dia, o jardineiro perdoa as suas roseiras. Sabe identificar que a ausência de flores não significa a morte absoluta, mas o repouso do preparo. Quem não souber viver o silêncio da preparação não terá o que florir depois...
Precisamos aprender isso. Olhar para aquele que nos magoou e descobrir que as roseiras não dão flores fora do tempo nem tampouco fora do cultivo. Se não há flores, talvez seja porque ainda não tenha chegado a hora de florir. Cada roseira tem seu estatuto, suas regras... Se não há flores, talvez seja porque até então ninguém tenha dado a atenção necessária para o cultivo daquela roseira.
A vida requer cuidado. Os amores também. Flores e espinhos são belezas que se dão juntas. Não queira uma só. Elas não sabem viver sozinhas... Quem quiser levar a rosa para sua vida, terá de saber que com ela vão inúmeros espinhos. Mas não se preocupe. A beleza da rosa vale o incômodo dos espinhos... ou não.

Fonte: fabiodemelo.com.br




Ternura
Vinicius de Moraes

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar 
                                                            [ extático da aurora.



Texto extraído da antologia "Vinicius de Moraes - Poesia completa e prosa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 259.




Soneto Do Amor Total
Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

MARIA BETHÂNIA - GOSTOSO DEMAIS








terça-feira, 1 de outubro de 2013

O CAQUI



O CAQUI
 RUBEM ALVES

Gosto muito da Itália. Lá fiz muitos amigos. O que sinto é não saber falar italiano, uma língua tão bonita.  Lá, quando vou fazer uma fala, tenho de me valer de um intérprete. De vergonha, pus-me a estudar italiano. Estudo o “Berlitz” antes de dormir.
Pois me convidaram a fazer uma fala num congresso da “Fundação da Carta da Terra.” Carta da Terra é um tipo de “Direitos Humanos”. É um documento lindo, que deveria ser objeto de estudo nas escolas e no Congresso Nacional.
Pediram-me que falasse poeticamente sobre “Jardins”, que é um dos temas que repito sempre. O que é belo deve ser repetido, como os poemas e as músicas. Mas, vocês sabem, existe dentro de mim um Rubem brincalhão... Aí comecei a falar sobre o “Paraíso”, que é o grande sonho de Deus – para aqueles que lêem as Escrituras Sagradas.
Lembrei-me da tela de Dürer em que pintou Adão e Eva, os seres paradisíacos. Adão e Eva, corpos esculturais, cheios de vida. Notei, entretanto, que o pintor cometeu três erros.
Primeiro, ele colocou  umbigos na barriga de Adão e de Eva. Por  esse erro  ele poderia ter ido parar na fogueira. Esse detalhe, Adão e Eva com umbigos é, claramente, uma heresia. Umbigos só existem em seres nascidos de mulheres. Mas Adão e Eva não nasceram de mulheres. Saíram diretamente das mãos do Criador. Portanto, não tinham umbigo.
Segundo erro: Adão e Eva foram pintados ainda no seu estado de inocência. Prova disso está no fato de que as maçãs que têm nas mãos ainda não foram mordidas.  Estão inteiras. Portanto, como diz o texto bíblico, eles estavam nus e não se envergonhavam. Assim sendo, não existe razão alguma para que eles sejam pintados colocando o precário galho com uma maçã na ponta sobre as partes mais interessantes do corpo. Eles deveriam estar exibindo despudorada e castamente a sua linda nudez.
E, em terceiro lugar, o pintor pintou a maçã como sendo o fruto tentador, o furto  [Revisor: é “furto” mesmo] proibido. O que está errado. O fruto proibido tinha de ser um fruto de potência sedutora máxima. O que não é o caso da maçã.  A maçã  é fruta pudica. Não se despe por vontade própria. Só tira a roupa sob a violência da ponta da faca. E ainda geme quando é mordida.  Comer uma maçã é sempre um estupro.
Acho que o fruto tentador só poderia ter sido o caqui. O  caqui  inteiro é tentação. É só olhar pra ele para que ele diga, vermelho e lascivo: “Me coma, vá...”  E basta relar o dedo na sua carne para que ele se dispa e seus sucos vermelhos comecem a escorrer.

As potências eróticas, heréticas, filosóficas e teológicas do caqui estão presentes  no poema “O Caqui”, de Heládio Brito:

O vento, o vento ali.
 Mínimo sol por d’entre galhos,
 de trás, de frente, álacre, o caqui.
 Um ser-aí. Cá, aqui.
 Redondo gesto e gesta vegetal
 e uma festa de cor, pingo no i.
 Bem maior que a pi-tanga,
menor que a manga,
 o seu raio (ex)sangra,
dois, vezes o pi.
 A pele tranasluz. Si dá.
 A carne é mansa. E-d’entro
 o hirto centro: sêmen
te do existir  e hífen do prazer.
 Não vi? E é fruta.
 Ou é fruto do inconsciente?
Abrupto estar, não-ser-aíí?
Ou é silêncio ou grito?
Ou é sumo ou suma teológica?
Uma fruta? Fruto-em-si?
Comi? Ou não comi?
E é acre. Doce. Pouca.
 Nódoa, travo na boca. E o vento, o vento ali...”

( Oficina, Papirus, p. 11 ).

Foi isso que disse Adão depois de comer o caqui...
No dia seguinte recebi um telefonema de uma pessoa que  eu não conhecia. Convidava-me a visitar um prédio que em tempos passados havia sido um mosteiro onde viviam reclusas e castas duzentas freiras. Aceitei o convite e fui na hora marcada. Ele me levou então para o jardim interior do mosteiro e me contou a seguinte história:
Depois da bomba atômica que matou 200.000 pessoas em Hiroshima e torrou todas as coisas vivas, houve uma árvore que sobreviveu. Era um caquizeiro. Esse caquizeiro passou a ser  então,  para os japoneses,  um símbolo do triunfo da vida sobre a morte.  Os japoneses o tomaram sob seus cuidados,  colheram seus frutos, plantaram suas sementes e espalharam suas mudas por muitas cidades do mundo. Uma das cidades agraciadas com essa dádiva fora  Brescia, onde estávamos.”
Me apontou então para uma árvore plantada  no meio do jardim. Estávamos diante  de uma filha ( quem sabe uma neta?) do caquizeiro que sobrevivera à bomba atômica de Hiroshima...
Senti-me como Moisés diante da árvore que se incendiava sem se consumir... Com medo de estar fazendo um pedido impróprio, perguntei-lhe se me seria permitido apanhar três folhas do caquizeiro. Ele disse que sim. Apanhei as folhas. Coloquei-as dentro de guardanapos de papel para desidratá-las.  Trouxe-as para Campinas.  Pintei-as com verniz para preservá-las do contacto com o ar. A seguir levei-as a uma loja especializada e mandei fazer um quadro.
As folhas estão agora na minha parede. Quem só vê o quadro não entende:  as folhas não têm nenhuma beleza especial... Então eu conto a estória...
Passadas duas semanas recebi da Itália um e-mail. Informavam-me que a fundação que cuidava do caqui estava disposta a dar-me uma muda a ser plantada nalgum lugar. Onde? – me perguntei. Não na minha casa.  Aquela árvore é um símbolo para o mundo todo. Não num jardim público. Tenho medo dos vândalos. Imaginei então que um bom lugar seria a Fazenda Santa Elisa. Faríamos um jardim cercado por um espelho de água  com peixes e plantas aquáticas... E no centro, protegida pelo espelho d’água, a arvorezinha.

As escolas poderiam levar as crianças para visitá-la. E então  os professores e professoras lhe contariam a história.



RITA LEE - MANIA DE VOCÊ