A vida exige leveza, assim como a viagem. A estrada fica mais bonita quando
podemos olhá-la sem o peso de malas nas mãos.
Seguir leve é desafio. Há paradas que nos motivam compras, suplementos
que julgamos precisar num tempo que ainda não nos pertence, e que nem sabemos
se o teremos.
Temos a pretensão de preparar o futuro. Eu tenho. Talvez você tenha
também. É bom que a gente se ocupe de coisas futuras, mas tenho receio que a
ocupação seja demasiada. Temo que na honesta tentativa de me projetar, eu me
esqueça de ficar no hoje da vida.
Os pesos nascem desta articulação. Coisas do passado, do presente e do
futuro. Tudo num tempo só.
Há uma cena que me ensina sobre tudo isso. Vejo o menino e sua pipa que
não sobe ao céu. Eu o observo de longe. Ele faz de tudo. Mexe na estrutura,
diminui o tamanho da rabiola, e nada. O pequeno recorte de papel colorido,
preso na estrutura de alguns feixes de bambú retorcidos se recusa a conhecer as
alturas.
O menino se empenha. Sabe muito bem que uma pipa só tem sentido se for
feita para voar. Ele acredita no que ouviu. Alguém o ensinou o que é uma pipa,
e para que serve. Ele acredita no que viu. Alguém já empinou uma pipa ao seu
lado. O que ele agora precisa é repetir o gesto. Ele tenta, mas a pipa está
momentaneamente impossibilitada de cumprir a função que possui.
Sem desistir do projeto, o menino continua o seu empenho. Busca
soluções. Olha para os amigos que estão ao lado e pede ajuda. Aos poucos eles
se juntam e realizam gestos de intervenção...
Por fim, ele tenta mais uma vez. O milagre acontece. Obedecendo ao
destino dos ventos, a pipa vai se desprendendo das mãos do menino. A linha que
até então estava solta vai se esticando. O que antes estava preso ao chão, aos
poucos, bem aos poucos, vai ganhando a imensidão do céu.
O rosto do menino se desprende no mesmo momento em que a pipa inicia a
sua subida. O sorriso nasceu, floresceu leve, sem querer futuro, sem querer
passado. Sorriso de querer só o presente. As linhas nas mãos. A pipa no céu...
Não reclamo. Apenas constato. Tem ficado cada vez mais difícil a gente
se reconciliar com os erros cometidos. O motivo é simples. A vida privada
acabou. O acontecimento particular passa a pertencer a todos. A internet é um
recurso para que isso aconteça. Os poucos minutos noticiados não cairão no
esquecimento. Há um modo de fazê-los perdurarem. Quem não viu poderá ver.
Repetidas vezes. É só procurar o caminho, digitar uma palavra para a busca.
Tudo tem sido assim. A socialização da notícia é um fato novo, interessantíssimo.
Possibilita a informação aos que não estavam diante da TV no momento em que foi
exibida.
A internet nos oferece uma porta que nos devolve ao passado. Fico
fascinado com a possibilidade de rever as aberturas dos programas do meu tempo
de infância. As imagens que permaneciam vivas no inconsciente reencontram a
realidade das cores, movimentos e dos sons.
Mas o que fazer quando a imagem disponível refere-se ao momento trágico
da vida de uma pessoa? Indigência exposta, ferida que foi cavada pelos dedos
pontiagudos da fragilidade humana? Ainda é cedo para dizer. Este novo tempo
ainda balbucia suas primeiras palavras.
O certo é que a imagem eterniza o erro, o deslize. Ficará para
posteridade. Estará resguardada, assim como o museu resguarda documentos que
nos recordam a história do mundo.
Coisas da contemporaneidade. Os recursos tecnológicos nos permitem
eternizar belezas e feiúras.
Uma fala sobre o erro. Eles nascem de nossa condição humana. Somos
falíveis. É estatuto que não podemos negar. Somos insuficientes, como tão bem
sugeriu o filósofo francês, Blaise Pascal. O bem que conhecemos nem sempre
atinge nossas ações. Todo mundo erra. Uns mais, outros menos. Admitir os erros
é questão de maturidade. Esperamos que todos o façam. É nobre assumir a
verdade, esclarecer os fatos. Mais que isso. É necessário assumir as
conseqüências jurídicas e morais dos erros cometidos. Não se trata de sugerir
acobertamento, nem tampouco solicitar que afrouxem as regras. Quero apenas
refletir sobre uma das inadequações que a vida moderna estabeleceu para a
condição humana.
Tenho aprendido que o direito de colocar uma pedra sobre o erro faz
parte de toda experiência de reconciliação pessoal. Virar a página, recomeçar,
esquecer o peso do deslize é fundamental para que a pessoa possa ser capaz de
reassumir a vida depois da queda. É como ajeitar uma peça que ficou sem
encaixe. O prosseguimento requer adequação dos desajustes. E isso requer
esquecer. Depois de pagar pelo erro cometido a pessoa deveria ter o direito de
perder o peso da culpa. O arrependimento edifica, mas a culpa destrói.
Mas como perder o malefício do erro se a imagem perpetua no tempo o que
na alma não queremos mais trazer? Nasce o impasse. O homem hoje perdoado ainda
permanecerá aprisionado na imagem. A vida virtual não liberta a real, mas a
coloca na perspectiva de um julgamento eterno. A morbidez do momento não se
esvai da imagem. Será recordada toda vez que alguém se sentir no direito de
retirar a pedra da sepultura. E assim o passado não passa, mas permanece
digitalizado, pronto para reacender a dor moral que a imagem recorda.
Estamos na era dos pecados públicos. Acusadores e defensores se
digladiam nos inúmeros territórios da vida virtual. Ambos a acenderem o fogo
que indica o lugar onde a vítima padece. A alguns o anonimato encoraja. Gritam
suas denúncias como se estivessem protegidos por uma blindagem moral. Como se
também não cometessem erros. Como se estivessem em estado de absoluta
coerência. No conforto de suas histórias preservadas, empunham as pedras para
atacar os eleitos do momento.
O fato é que o pecador público exerce o papel de vítima expiatória
social. Nele todas as iras são depositadas porque nele todas as misérias são
reconhecidas. No pecado do outro nós também queremos purgar o pecado que está
em nós. Em formatos diferentes, mas está. Crimes menores, maiores; não sei. Mas
crimes. Deslizes diários que nos recordam que somos território da indigência. O
pecador exposto na vitrine deixa de ser organismo. Em sua dignidade negada ele
se transforma em mecanismo de purificação coletiva. É preciso cautela. Nossos
gritos de indignação nem sempre são sinceros. Podem estar a serviço de nossos
medos. Ao gritar a defesa ou a condenação podemos criar a doce e temporária
sensação de que o erro é uma realidade que não nos pertence. Assumimos o
direito de nos excluir da classe dos miseráveis, porque enquanto o pecador
permanecer exposto em sua miséria, nós nos sentiremos protegidos.
Mas essa proteção que não protege é a mãe da hipocrisia. Dela não
podemos esperar crescimento humano, nem tampouco o florescimento da
misericórdia. Uma coisa é certa. Quando a misericórdia deixa de fazer parte da
vida humana, tudo fica mais difícil. É a partir dela que podemos reencontrar o
caminho. O erro humano só pode ser superado quando aquele que erra encontra um
espaço misericordioso que o ajude a reorientar a conduta.
Nisso somos todos iguais. Acusadores e defensores. Ou há alguém entre
nós que nunca tenha necessitado de ser olhado com misericórida?
Preconceito é uma forma fácil de ter
opinião. Não requer esforço, não requer pesquisa, empenho, visto que se trata
de uma primeira visão que temos acerca de uma determinada realidade.
É óbvio, mas é bom dizer, que a
visão preconceituosa, é aquela que resolveu ficar parada no pré-conceito, isto
é, no que vem antes da verdade. Um conceito é sempre o fruto de uma elaboração
mais trabalhosa da vida, o pré-conceito não. Ele é uma fase primária do
conceito. É por isso que quem gosta de pré-conceitos tende a ficar na
imaturidade a vida inteira.
O mesmo se deu conosco quando
entramos no pré-primário. Já imaginou se não tivéssemos aceitado o desafio de
ir para o primário, com suas dificuldades e diferenças do pré?
Somente o passo em direção ao novo
nos garante a felicidade das surpresas.A vida é sempre assim. O que agora é
alimento, com o tempo, deixa de sustentar. Isto porque estamos num constante
processo de superação humana, e o que nos move, é este desejo de irmos além...
É por isso, que me entusiasmo com a
dimensão antropológica do cristianismo. As palavras de Jesus nos encorajam para
um constante aperfeiçoamento de nossa humanidade e para a constante superação
dos nossos limites.E então,
passamos a compreender que santificação é o mesmo que dizer humanização.Retirar os excessos, lapidar as
arestas, superar as mesquinharias, os modelos superficiais de análises, os
ciúmes e os apegos desordenados, são formas concretas de santificar a nossa
vida.
Preconceito é também uma forma de
aprisionamento. Olhamos o outro e o definimos a partir do que achamos sobre
ele. Temos uma série de opiniões que resolvemos construir dentro de nós, e que
são frutos de uma primeira visão. Olhamos e encaixotamos o outro no nosso
preconceito. Decidimos que ele é assim, mesmo que nunca tenhamos nos
aproximado dele para confirmar o que achamos...
Achamos e perdemos. Perdemos por
desperdiçara oportunidadede superar o conhecimento aparente, e
assim quem sabe, ganhar um grande amigo, um grande apoio existencial. Achamos
muitas coisas sobre ele. E por achar tanto, resolvemos não buscar a verdade
fundamental, e assim deixamos de ganhar. Talvez esse seja um dos grandes pecados
do nosso tempo.O mundo é
superficial nas suas análises. Basta flagrar uma única atitude, para que o
mundo entregue o seu parecer preconceituoso e definitivo.
Jesus se opunha radicalmente a esta
postura. Ele gostava de ver além. E alertava os discípulos para este constante
cuidado. O cristianismo supera o judaísmo justamente neste ponto.Jesus não queria uma religião que
parasse na exterioridade, que dispensasse facilmente as pessoas só porque têm
uma aparência ou um histórico que num primeiro momento não nos agrade.
A beleza da vida consiste em olhar o
mundo com "olhos de terceira margem", com os olhos de Jesus. Eu, nem
sempre consigo, mas não quero perder este esforço de vista.Eu ainda vivo o desconcerto das
escolhas de Jesus. Fico indignado quando o vejo escolher Zaqueu em meio a tanta
gente santa e de boa índole. Ainda me incomoda quando ele diz que as
prostitutas podem me preceder na entrada do Reino.
E então me vejo, com minha maneira
rasa e infecunda de esbarrar nas pessoas, de condená-las àquilo que acho sobre
elas e de impedi-las de me surpreenderem com sua beleza escondida.
A vida é igual garimpo. Não se
percebe o diamante numa primeira olhada. Por ser muito parecido com o cascalho,
corre o risco de ser jogado fora. Cascalhos e diamantes se parecem. A única
diferença é que o diamante esconde o brilho sob as cascas que o revestem. É
preciso lapidar.Pessoas são como diamantes. Corremos
o risco de jogá-las fora só porque não tivemos a disposição de olhá-las para
além de suas cascas. E então, desperdiçamos grandes riquezas no exercício de
alimentar pobrezas.
Quando o meu preconceito me impede
de ver o diamante, eu me torno cascalho no mundo. Espero que hoje você descubra
diamantes por onde passar.Se descobrir, estará sendo
semelhante a Jesus...
O amor é equação onde prevalece a multiplicação do perdão
Amor,
que é amor, dura a vida inteira. Se não durou é porque nunca foi amor.
O amor
resiste à distância, ao silêncio das separações e até às traições. Sem perdão
não há amor.Diga-me quem você
mais perdoou na vida, e eu então saberei dizer quem você mais amou.
O amor
é equação onde prevalece a multiplicação do perdão. Você o percebe no momento
em que o outro fez tudo errado, e mesmo assim você olha nos olhos dele e diz:
"Mesmo fazendo tudo errado, eu não sei viver sem você. Eu não posso ser
nem a metade do que sou se você não estiver por perto".
O amor
nos possibilita enxergar lugares do nosso coração os quais sozinhos jamais
poderíamos enxergar.
O poeta
soube traduzir bem quando disse:"Se
eu não te amasse tanto assim, talvez perdesse os sonhos dentro de mim e vivesse
na escuridão. Se eu não te amasse tanto assim talvez não visse flores por onde
eu vi, dentro do meu coração!"
Bonito
isso. Enxergar sonhos que antes eu não saberia ver sozinho. Enxergar só porque
o outro me emprestou os olhos, socorreu-me em minha cegueira. Eu possuía e não
sabia. O outro me apontou, me deu a chave, me entregou a senha.
Coisas
que Jesus fazia o tempo todo. Apontava jardins secretos em aparentes desertos.
Na aridez do coração de Madalena, Jesus encontrou orquídeas preciosas. Fez
vê-las e chamou a atenção para a necessidade de cultivá-las.
Fico
pensando que evangelizar talvez seja isso: descobrir jardins em lugares que
consideramos impróprios. Os jardineiros sabem disso. Amam as flores e por isso
cuidam de cada detalhe,porque
sabem que não há amor fora da experiência do cuidado. A cada dia, o
jardineiro perdoa as suas roseiras. Sabe identificar que a ausência de flores
não significa a morte absoluta, mas o repouso do preparo. Quem não souber viver
o silêncio da preparação não terá o que florir depois...
Precisamos
aprender isso. Olhar para aquele que nos magoou e descobrir que as roseiras não
dão flores fora do tempo nem tampouco fora do cultivo. Se não há flores, talvez
seja porque ainda não tenha chegado a hora de florir. Cada roseira tem seu
estatuto, suas regras... Se não há flores, talvez seja porque até então ninguém
tenha dado a atenção necessária para o cultivo daquela roseira.
A vida
requer cuidado. Os amores também. Flores e espinhos são belezas
que se dão juntas. Não queira uma só. Elas não sabem viver sozinhas... Quem
quiser levar a rosa para sua vida, terá de saber que com ela vão inúmeros
espinhos. Mas não se preocupe. A beleza da rosa vale o incômodo dos espinhos...
ou não.
Fonte:
fabiodemelo.com.br
Ternura
Vinicius
de Moraes
Eu te
peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar
[ extático da aurora.
Texto extraído da antologia
"Vinicius de Moraes - Poesia completa e prosa", Editora Nova Aguilar
- Rio de Janeiro, 1998, pág. 259.
Gosto muito da Itália. Lá
fiz muitos amigos. O que sinto é não saber falar italiano, uma língua tão
bonita. Lá, quando vou fazer uma fala, tenho de me valer de um
intérprete. De vergonha, pus-me a estudar italiano. Estudo o “Berlitz” antes de
dormir.
Pois me convidaram a fazer
uma fala num congresso da “Fundação da Carta da Terra.” Carta da Terra é um
tipo de “Direitos Humanos”. É um documento lindo, que deveria ser objeto de
estudo nas escolas e no Congresso Nacional.
Pediram-me que falasse
poeticamente sobre “Jardins”, que é um dos temas que repito sempre. O que é
belo deve ser repetido, como os poemas e as músicas. Mas, vocês sabem, existe
dentro de mim um Rubem brincalhão... Aí comecei a falar sobre o “Paraíso”, que
é o grande sonho de Deus – para aqueles que lêem as Escrituras Sagradas.
Lembrei-me da tela de
Dürer em que pintou Adão e Eva, os seres paradisíacos. Adão e Eva, corpos
esculturais, cheios de vida. Notei, entretanto, que o pintor cometeu três
erros.
Primeiro, ele
colocou umbigos na barriga de Adão e de Eva. Por esse erro
ele poderia ter ido parar na fogueira. Esse detalhe, Adão e Eva com umbigos é,
claramente, uma heresia. Umbigos só existem em seres nascidos de mulheres. Mas
Adão e Eva não nasceram de mulheres. Saíram diretamente das mãos do Criador.
Portanto, não tinham umbigo.
Segundo erro: Adão e Eva
foram pintados ainda no seu estado de inocência. Prova disso está no fato de
que as maçãs que têm nas mãos ainda não foram mordidas. Estão inteiras.
Portanto, como diz o texto bíblico, eles estavam nus e não se envergonhavam.
Assim sendo, não existe razão alguma para que eles sejam pintados colocando o
precário galho com uma maçã na ponta sobre as partes mais interessantes do
corpo. Eles deveriam estar exibindo despudorada e castamente a sua linda nudez.
E, em terceiro lugar, o
pintor pintou a maçã como sendo o fruto tentador, o furto [Revisor: é
“furto” mesmo] proibido. O que está errado. O fruto proibido tinha de ser um
fruto de potência sedutora máxima. O que não é o caso da maçã. A
maçã é fruta pudica. Não se despe por vontade própria. Só tira a roupa
sob a violência da ponta da faca. E ainda geme quando é mordida. Comer
uma maçã é sempre um estupro.
Acho que o fruto tentador
só poderia ter sido o caqui. O caqui inteiro é tentação. É só olhar
pra ele para que ele diga, vermelho e lascivo: “Me coma, vá...” E basta relar o
dedo na sua carne para que ele se dispa e seus sucos vermelhos comecem a
escorrer.
As potências eróticas,
heréticas, filosóficas e teológicas do caqui estão presentes no poema “O
Caqui”, de Heládio Brito:
“O
vento, o vento ali. Mínimo sol por
d’entre galhos, de trás, de
frente, álacre, o caqui. Um ser-aí. Cá,
aqui. Redondo gesto e
gesta vegetal e uma festa de
cor, pingo no i. Bem maior que a
pi-tanga, menor que a manga, o seu raio
(ex)sangra, dois, vezes o pi. A pele
tranasluz. Si dá. A carne é mansa.
E-d’entro o hirto centro:
sêmen te do existir e
hífen do prazer. Não vi? E é
fruta. Ou é fruto do
inconsciente? Abrupto estar,
não-ser-aíí? Ou é silêncio ou
grito? Ou é sumo ou suma
teológica? Uma fruta?
Fruto-em-si? Comi? Ou não comi? E é acre. Doce. Pouca. Nódoa, travo na
boca. E o vento, o vento ali...”
( Oficina, Papirus, p. 11 ).
Foi isso que disse Adão depois de comer o caqui...
No dia seguinte recebi um
telefonema de uma pessoa que eu não conhecia. Convidava-me a visitar um
prédio que em tempos passados havia sido um mosteiro onde viviam reclusas e
castas duzentas freiras. Aceitei o convite e fui na hora marcada. Ele me levou
então para o jardim interior do mosteiro e me contou a seguinte história:
“Depois da bomba atômica que
matou 200.000 pessoas em Hiroshima e torrou todas as coisas vivas, houve uma
árvore que sobreviveu. Era um caquizeiro. Esse caquizeiro passou a ser
então, para os japoneses, um
símbolo do triunfo da vida sobre a morte. Os japoneses o tomaram sob seus
cuidados, colheram seus frutos, plantaram suas sementes e espalharam suas
mudas por muitas cidades do mundo. Uma das cidades agraciadas com essa dádiva
fora Brescia, onde estávamos.”
Me apontou então para uma
árvore plantada no meio do jardim.
Estávamos diante de uma filha ( quem sabe uma neta?) do
caquizeiro que sobrevivera à bomba atômica de Hiroshima...
Senti-me como Moisés
diante da árvore que se incendiava sem se consumir... Com medo de estar fazendo
um pedido impróprio, perguntei-lhe se me seria permitido apanhar três folhas do
caquizeiro. Ele disse que sim. Apanhei as folhas. Coloquei-as dentro de
guardanapos de papel para desidratá-las. Trouxe-as para Campinas.
Pintei-as com verniz para preservá-las do contacto com o ar. A seguir levei-as
a uma loja especializada e mandei fazer um quadro.
As folhas estão agora na
minha parede. Quem só vê o quadro não entende: as folhas não têm nenhuma
beleza especial... Então eu conto a estória...
Passadas duas semanas
recebi da Itália um e-mail. Informavam-me que a fundação que cuidava do caqui
estava disposta a dar-me uma muda a ser plantada nalgum lugar. Onde? – me
perguntei. Não na minha casa. Aquela árvore é um símbolo para o mundo
todo. Não num jardim público. Tenho medo dos vândalos. Imaginei então que um
bom lugar seria a Fazenda Santa Elisa. Faríamos um jardim cercado por um
espelho de água com peixes e plantas aquáticas... E no centro, protegida
pelo espelho d’água, a arvorezinha.
As escolas poderiam levar
as crianças para visitá-la. E então os professores e professoras lhe
contariam a história.