sábado, 29 de junho de 2013

O AMOR DA VELHICE - RUBEM ALVES




 
 
 
O AMOR DA VELHICE
RUBEM ALVES


O amor dos dois surgira no tempo em que ele é mais puro: a adolescência. Riam, passeavam pela praça, comiam pipoca, e faziam planos para quando se casassem.

Naquele tempo, antes dos progressos da ciência, grassava uma praga mortífera chamada tuberculose que atacava os pulmões. Para ela não havia remédio a não ser comida, repouso e ar puro. O resto era o próprio corpo que tinha de curar-se. Pois ela, a tuberculose, invejosa da felicidade dos dois jovens, alojou-se nos pulmões do moço. Ele teve de deixar a sua cidade e a sua namorada em busca de ar puro, no alto das montanhas, um sanatório, tal como Thomas Mann descreveu em seu livro A montanha mágica.

Quem ia para tais lugares de cura despedia-se com um “adeus” e um olhar de “nunca mais”. Na melhor das hipóteses muitos anos haveriam de passar.

E aconteceu com a jovem o que seus pais sugeriram: ela se casou. E ele também se casou. E por mais de 50 anos não se viram. Quando ele tinha 76 anos, ficou viúvo. Quando ela tinha 76 anos e ele 79, ela ficou viúva. E ficou sabendo que ele, o amor da sua juventude estava vivo. A curiosidade e a saudade foram fortes demais. Ela não resistiu. Foi à sua procura. Encontraram-se. E, de repente, eram de novo namorados adolescentes apaixonados. Resolveram casar-se. Os filhos protestaram. Os filhos, todos os filhos, não suportam a ideia de que os velhos também amem. Especialmente se forem seus os pais...

Mas os dois velhos, já no fim da vida, sabendo que o tempo de amor que lhes restava era curto, não deram ouvidos aos filhos: casaram-se e mudaram-se para uma cidade do interior.

Viveram um ano de amor intenso que provocou metamorfoses: ele se descobriu poeta, começou a escrever poesia. Além disso tirou seu violino de cima do guarda-roupas e passou a fazer parte de uma orquestra da cidade. Confessou a um sobrinho: “Se Deus me der dois anos de vida com esta mulher, minha vida terá valido a pena...”. Bem que Deus se esforçou. Mas o corpo já estava cansado. Morreu de amor. Eu achei essa história tão comovente que a transformei num texto.

Passaram-se semanas da sua publicação. Eram dez horas da noite. Eu trabalhava no meu escritório. O telefone tocou. Voz aveludada de mulher do outro lado.

 - É o professor Rubem Alves?
 -
Sim, respondi.
 - Quero agradecer a belíssima crônica que o senhor escreveu com o título “... e os velhos se apaixonarão de novo”. O senhor já deve ter adivinhado quem está falando...
 - Não, não adivinhei, respondi. Aí ela se revelou:
 - Sou a viúva.

Foi o início de uma deliciosa conversa em que ela contou detalhes que eu desconhecia. O medo que ela teve quando ele resolveu mandar consertar o violino! Ela temia que os seus dedos já estivessem duros demais...

Ah! Que metáfora fascinante para um psicanalista sensível. Sim, sim! Nem os violinos ficam velhos demais, nem os dedos ficam impotentes para produzir música! E aí foi contando, contando, revivendo, sorrindo, chorando – tanta alegria, tanta saudade, uma eternidade inteira num grão de areia... Ao terminar, ela fez esta confissão comovedora:

 - Pois é, professor. Na idade da gente, a gente não mexe muito, as coisas de sexo. Nós vivíamos de ternura!

O que me fez lembrar a observação de Kundera sobre a necessidade “de salvar o amor da tolice da sexualidade”. A sexualidade pertence à ordem da Biologia, o que nos aproxima dos animais. Mas o amor pertence à ordem da poesia. Abelardo e Heloísa se amaram até a morte. 



* Texto publicado na revista Ciência e Vida Psique. Ano V n 52-

Amor é isto: a dialética entre a alegria do encontro e a dor da separação. De alguma forma a gota de chuva aparecerá de novo, o vento permitirá que velejemos de novo, mar afora.
Morte e ressurreição. Na dialética do amor, a própria dialética do divino.
Quem não pode suportar a dor da separação, não está preparado para o amor. Porque o amor é algo que não se tem nunca. É evento de graça.
Aparece quando quer, e só nos resta ficar à espera. E quando ele volta,a alegria volta com ele. E sentimos então que valeu a pena suportar a dor da ausência, pela alegria do reencontro.
Compreendi, então,
que a vida não é uma sonata que,
para realizar a sua beleza,
tem de ser tocada até o fim.
Dei-me conta, ao contrário,
de que a vida é um álbum de mini-sonatas.
Cada momento de beleza vivido e amado,
por efêmero que seja,
é uma experiência completa
que está destinada à eternidade.
Um único momento de beleza e amor
justifica a vida inteira.
 
Eu sei que vou te amar by Joâo Gilberto


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 

terça-feira, 25 de junho de 2013

AMANTES IMORTAIS



 

Abelardo e Heloisa os amantes imortais  Webinar Transcript


·                                 1. Um dos mais belos túmulos que se encontra no Cemitério Pére Lachaise é o de Pierre Abélard e Héloïse, protagonistas de um trágico romance interrompido na Paris medieval do século XII.

·                                 2. Conhecidos como os amantes imortais, Heloísa e o filósofo Pedro Abelardo foram vítimas da rigidez da época medieval, que proibia o relacionamento entre professor e aluna. Sem conseguirem controlar a paixão que os arrebatou, tornaram-se amantes e seus encontros na fase mais secreta da relação, aconteciam em claustros ou sacristias e adjacências de igrejas, únicos locais que Heloisa podia freqüentar sozinha, a despeito da culpa que o ato de se amarem em solo sagrados lhes provocava.

·                                 3. Antes de se conhecerem, Abelardo havia sido transferido e nomeado professor pela Escola da Catedral de Notre Dame, tornando-se, em pouco tempo, muito conhecido por admirar os filósofos não-cristãos, numa época de forte poder da Igreja Católica. Ainda assim foi o mais ilustre filósofo e teólogo do séc. XII, e escreveu “A Dialética”, obra de Lógica mais influente até o final do séc. XIII em Roma, onde foi usada como manual escolar.

·                                 4. Há versões variadas sobre o primeiro encontro. Segundo alguns, Heloísa, que já ouvira falar sobre Abelardo e se interessava por suas teorias polêmicas, tentou se aproximar dele através de seus conhecidos no meio acadêmico. Segundo outra versão, Abelardo tornou-se amigo do Cônego Fulbert , tio e tutor de Heloísa, que o aceitou como o mais novo professor de sua sobrinha, hospedando-o em sua casa, em troca das aulas noturnas que ele lhe daria.

·                                 5. A despreocupação de Fulbert em relação à convivência dos dois baseava-se no fato de que na época os mestre e educadores eram celibatários e castos. Além disso havia a sagrada lei da hospitalidade que impediria Abelardo de trair a confiança de seu anfitrião. Mas em pouco tempo as aulas passaram a ser ansiosamente aguardadas por ambos e, contando com a confiança de Fulbert, passaram a ficar a sós. Fulbert ia dormir, e a criada retirava-se para o quarto ao lado.

·                                 6. Em alguns meses, conheciam-se bem, e a ânsia de ficarem juntos só aumentava. Um dia Abelardo tirou o cinto que prendia a túnica de Heloísa e os dois se amaram apaixonadamente. A partir desse momento, negligenciaram os estudos, passando a viver em função do amor que sentiam um pelo outro.

·                                 7. Carta de Abelardo a um amigo: “ Sob o pretexto de estudar, entregávamos inteiramente ao amor. As lições nos propiciavam esses tête-à-tête secretos que o amor anseia. Os livros permaneciam abertos, mas o amor mais do que nossa leitura era o objeto dos nossos diálogos; trocávamos mais beijos do que proposições sábias. Minhas mãos voltavam com mais freqüência a seus seios do que a nossos livros. O amor mais freqüentemente se buscava nos olhos de um e outro do que a atenção os dirigia sobre o texto”

·                                 8. Ao mesmo tempo Sibyle, a criada mais amiga, adoeceu e uma outra serva que a substituíra encontrou uma carta de Abelardo dirigida a Heloísa, e a entregou a Fulbert, que imediatamente o expulsou. No entanto isso não foi suficiente para separá-los.

·                                 9. Heloísa preparou poções para seu tio dormir e, com a ajuda da criada Sibyle, Abelardo foi conduzido a outro local, que passou a ser o ponto de encontro dos dois. Uma noite, porém, alertado por outra criada, Fulbert acabou por descobri-los.

·                                 10. Heloísa foi espancada, e a casa passou a ser cuidadosamente vigiada. Mesmo assim o amor dos dois não diminuiu, e eles continuaram a se encontrar nas cercanias de igrejas, onde Fulbert julgou erroneamente que a sobrinha ainda podia freqüentar sem vigilância.

·                                 11. Heloísa acabou engravidando, e para evitar escândalo, Abelardo levou-a à aldeia de Pallet, situada no interior da França. Ali, Abelardo deixou Heloísa aos cuidados de sua irmã e voltou a Paris, mas não agüentou a solidão que sentia, longe da amada, e resolveu falar com Fulbert, para pedir seu perdão e a mão de Heloísa em casamento. Surpreendentemente, Fulbert o perdoou e concordou com o casamento.

·                                 12. Ao receber as boas novas, Heloísa, deixando o filho Astrolábio com a irmã de Abelardo, voltou a Paris, sentindo, no entanto, um prenúncio de tragédia. Casaram-se no meio da noite, às pressas, numa pequena ala da Catedral de Notre Dame, sem trocar alianças ou um beijo diante do sacerdote. (Catedral Notre-Dames – interior)

·                                 13. O sigilo do casamento não durou muito, e logo começaram a zombar de Heloísa e da educação que Fulbert dera a ela. Amargando cólera desde a primeira descoberta sobre os dois, Fulbert resolveu dar vazão ao desejo de vingança e tomou uma decisão atroz. Contratou dois carrascos e pagou-os para invadirem o quarto de Abelardo durante a noite e arrancar-lhe o membro viril.

·                                 14. Após essa tragédia, Abelardo e Heloísa jamais voltaram a se falar. Desesperados com o ocorrido, considerando-o um castigo por sua profanação dos locais sagrados, encontraram como única fuga o ingresso na vida monástica.

·                                 15. Ela entrou para o convento de Santa Maria de Argenteul, só retornando à vida aos poucos, conforme as notícias de melhora de Abelardo iam surgindo. Para tentar amenizar a dor que sentiam, passaram a dedicar-se exclusivamente ao trabalho. Viam-se, mas não se falavam; apenas trocavam cartas.

·                                 16. Segundo algumas versões, Heloísa teria dito ao amado, que seria uma freira, mas não por amor a Deus, e sim para poder vê-lo de quando em quando. De qualquer forma o fato mais marcante é a força moral de Heloisa, determinada a não pertencer a qualquer outro homem que não Abelardo. (Ao lado “O Voto de Heloisa” de Pedro Américo Museu Nacional de Belas Artes – RJ)

·                                 17. Sua dedicação é corroborada por diversas cartas, onde ela confessa amar a Abelardo acima de qualquer coisa e somente cumprir as obrigações religiosas como prova de amor ao seu amante terreno, que lhe houvera pedido para entrar em um convento.

·                                 18. Carta de Heloísa a Abelardo: “ É certo que quanto maior é a causa da dor, maior se faz a necessidade de para ela encontrar consolo, e este ninguém pode me dar, além de ti. Tu és a causa de minha pena, e só tu podes me proporcionar conforto. Só tu tens o poder de me entristecer, de me fazer feliz ou trazer consolo."

·                                 19. Carta de Abelardo a Heloísa: "Fujo para longe de ti, evitando-te como a um inimigo, mas incessantemente te procuro em meu pensamento. Trago tua imagem em minha memória e assim me traio e contradigo, eu te odeio, eu te amo."

·                                 20. Abelardo construiu uma escola-mosteiro ao lado da escola-convento de Heloísa. Continuaram a ver-se, sem se falar, apenas trocando cartas apaixonadas. Abelardo morreu com 63 anos. Heloísa ergueu um grande sepulcro em sua homenagem, e faleceu algum tempo depois, sendo, por iniciativa de suas alunas, sepultada ao lado de Abelardo.

·                                 21. Conta-se que, ao abrirem a sepultura de Abelardo, para ali depositarem Heloísa, encontraram seu corpo ainda intacto e de braços abertos, como se estivesse aguardando sua chegada. Até hoje namorados depositam flores frescas no túmulo de Abelardo e Heloisa.

·                                 22. FORMATAÇÃO: CLAUDIA MADEIRA ENTRE NO SITE: http://slidescoreoesia.com TEXTO: INTERNET IMAGENS: GOOGLE SOM: “LIEBESTOD” (MORTE DE AMOR) DE “TRISTÃO E ISOLDA” DE R. WGNER QUEM DESEJAR RECEBER E-MAILS EM SUA CAIXA POSTAL ESCREVA PARA [email_address] COLOCANDO EM ASSUNTO:RECEBER SLIDES

  Acesse o site indicado e... Vale a pena!!!
 
 Em 1817 os restos mortais dos dois amantes foram levados para o cemitério do Padre Lachaise.
            
          
Sepultura de Abelardo e Heloísa no cemitério do Padre Lachaise

 



 
EM NOME DE DEUS 
 É, sem dúvida, um dos filmes mais lindos e comoventes  que eu já assisti e, caso você ainda não tenha visto, recomendo-o com enorme satisfação.

 

EM NOME DE DEUS


Formato: DVD

Diretor: DONNER, CLIVE

Distribuidora: LW - MICROSERVICE

Especificações Técnicas:


Título original: STEALING HEAVEN

Mídia: DVD

Região: 4

*Brasil, Austrália, Nova Zelândia, México, América Central, América do Sul

Ano de produção: 1988

País de Produção: Estados Unidos

Gênero: DRAMA

Duração: 115

Sistema: NTSC

Formato de Tela: DVD

Faixa Etária: 16

Idioma Original: INGLES

Legenda: PORTUGUES


 
 
 
 




“Deus fingiu não ver”
A seguir, carta de Heloísa para Abelardo.
Eu, infeliz e aflita entre todas as mulheres. Tu levantaste-me ainda mais alto só para aumentar a minha dor na queda. Enquanto entregávamo-nos aos prazeres da luxúria, Deus fingiu não estar vendo, mas depois castigou-nos, e nem mesmo o nosso casamento abrandou a sua cólera. O Maligno sabe até bem demais como usar uma mulher para arruinar um homem. Éramos dois, a pecar, mas só tu tiveste que pagar. Agora eu também sofro. Por tempo demais entreguei-me aos prazeres da carne e este é o justo castigo. Persegue-me a lembrança. Até durante a missa, quando a oração deveria fazer-me sentir mais pura, as lembranças atormentam a minha mente, e em lugar de arrepender-me tenho saudade daquilo que perdi. As pessoas louvam a minha castidade só porque não sabem que no fundo não passo de uma hipócrita. A minha habilidade em fingir consegue enganá-las, mas eu não me curei: penso em ti, te amo, te quero, te desejo, como antes, mais do que antes.
 
 
 
 


Abaixo, carta de Abelardo para Heloísa.

Tu sabes a que baixeza arrastou minha desenfreada concupiscência a nossos corpos. Nem o simples pudor, nem a reverência devida a Deus foram capazes de apartar-me do seio da lascívia, nem mesmo nos dias da Paixão do Senhor ou qualquer outra festa solene.
Mereço a morte e alcanço a vida. Se me chamam, dou as costas. Persisto no crime e sou perdoado contra minha vontade.
 
 

Tu me disseste: “Mas eu sofri por ti”. Não ponho isso em dúvida. Mas eu sofri mais por ti; e isso, mesmo contra a tua vontade. Não por um amor que saíra de ti, mas por coação minha. Não resultou em tua salvação, mas apenas em tua dor. Ele, ao contrário, padeceu porque quis e nos trouxe a salvação. Ele, que com sua paixão cura todas as enfermidades e dissipa toda dor. É nele – te suplico – e não em mim que irás centrar toda tua devoção, toda tua compaixão. Chora a grande injustiça cometida contra um ser tão inocente e não chora a justa vingança da eqüidade sobre mim – e, se quiseres, como já te digo –, a suprema graça que caiu sobre nós dois.
 
 
 

 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

MARIA BETHANIA

                                 
                                            


Maria Bethânia Viana Teles Velloso1 , mais conhecida como Maria Bethânia (Santo Amaro da Purificação, Bahia, 18 de Junho de 1946), é uma cantora brasileira de MPB.
Bethânia é irmã da escritora Mabel Velloso, do cantor e compositor Caetano Veloso, e tia dos cantores Belô Velloso e Jota Velloso.2
Tendo lançado 50 álbuns de estúdio em 47 anos de carreira,3 a cantora está entre os 10 artistas com maior número de vendagem de discos no Brasil, com cerca de mais de 26 milhões de cópias vendidas.
 

Legado

Bethânia revolucionou a forma de se fazer espetáculos no Brasil, intercalando músicas com poemas - Fernando Pessoa, poeta português, Vinícius de Moraes a quem chegou a dedicar um disco inteiro em 2005, Que falta você me faz (a gravação deste álbum foi concluída em janeiro de2004 mas somente lançado no ano seguinte, em comemoração aos 40 anos de carreira e amizade com Vinícius, contando com a participação especial deste na declamação do poema Poética I e na música Nature boy (Encantado)), Clarice Lispector - criando um estilo próprio e que muito lembra peças teatrais. Vários dos espetáculos estão entre os mais importantes da história da música popular brasileira, onde se destacam diversos, como Recital na Boite Barroco (1968), o primeiro disco gravado ao vivo, Maria Bethânia ao vivo (1970), ambos lançados pela gravadora EMI,Rosa dos Ventos - o show encantado (1971) produzido e dirigido por Fauzi Arap, Drama terceiro ato - luz da noite gravado ao vivo no Teatro da Praia na capital fluminense (1973), A cena muda (1974), gravado ao vivo no Teatro Casa Grande, onde não declamou poemas - como o próprio título sugere, tendo sido um dos espetáculos mais ousados da trajetória da artista, Chico Buarque e Maria Bethânia ao vivo (1975), Maria Bethânia e Caetano Veloso ao vivo (1978), e Nossos momentos (1982), gravado entre 29 de setembro e 3 de outubro daquele ano, contendo a antológica interpretação de Vida e O que é o que é, esta última lançada pelo autor Gonzaguinha no mesmo ano, que seria o bis preferido dos espetáculos dali por diante. Isso explica a presença de vários discos ao vivo na carreira da artista - mais especificamente catorze, onde se inclui um gravado na Argentina (Mar del Plata), com Vinícius de Moraes e Toquinho; já como intérprete, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Jobim, Noel Rosa, Gonzaguinha, Roberto Carlos, Vinícius de Moraes, Roberto Mendes, Jorge Portugal e Milton Nascimento, são os compositores com maior número de interpretações na voz. Maria Bethânia é carinhosamente chamada por Roberto Carlos de minha rainha.
 
 
A CARTA DE AMOR
 
Ouça a interpretação de Maria Bethânia (vídeo 1) dos poemas misturados Mensagem de Maria Bethânia (texto marcado a encarnado), Todas as Cartas de Amor São Ridículas de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa (texto marcado a verde), e um extrato da carta de despedida de Fernando Pessoa à sua amada Ofélia, em novembro de 1920 (texto marcado a azul).Clique na imagem do vídeo 1 procurando seguir, ao mesmo tempo, os poemas transcritos à esquerda e na imagem do vídeo 2, seguindo parte do texto. Informe-se sobre os autores dos poemas e sobre a intérprete, clicando nas hiperligações que estão no fim da página.

Mensagem (Maria Bethânia) e Todas as Cartas de Amor São Ridículas (Álvaro de Campos-heterónimo de Fernando Pessoa) , poemas interpretados por Maria Bethânia
 

Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou
Com uma carta na mão
Ah! De surpresa, tão rude,
Nem sei como pude chegar ao portão
Lendo o envelope bonito,
O seu sobrescrito eu reconheci
A mesma caligrafia que me disse um dia
"Estou farto de ti"
Porém não tive coragem de abrir a mensagem
Porque, na incerteza, eu meditava
Dizia: "será de alegria, será de tristeza?"
Quanta verdade tristonha
Ou mentira risonha uma carta nos traz
E assim pensando, rasguei sua carta e queimei
Para não sofrer mais.
Todas as cartas de amor são 
Ridículas. 
Não seriam cartas de amor se não fossem 
Ridículas. 
Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
Como as outras, 
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor, 
Têm de ser 
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia 
Sem dar por isso 
Cartas de amor 
Ridículas.
Mas, afinal, 
Só as criaturas que nunca escreveram 
Cartas de amor 
É que são 
Ridículas.
A verdade é que hoje 
As minhas memórias 
Dessas cartas de amor 
É que são 
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas, 
Como os sentimentos esdrúxulos, 
São naturalmente Ridículas.)
Porém não tive coragem de abrir a mensagem
Porque, na incerteza, eu meditava
Dizia: "será de alegria, será de tristeza?"
Quanta verdade tristonha
Ou mentira risonha uma carta nos traz
E assim pensando, rasguei sua carta e queimei
Para não sofrer mais.
Quanto a mim o amor passou
Eu só lhe peço que não faça como gente vulgar
E não me volte a cara quando passa por si
Nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor
Fiquemos um perante o outro
Como dois conhecidos desde a infância
Que se amaram um pouco quando meninos
Embora na vida adulta sigam outras afeições
Conserva-nos, escaninho da alma, a memória de seu amor antigo e inútil.


vídeo 1
 
Ouça, igualmente,Todas as Cartas de Amor São Ridículas de Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), interpretado
por Maria Bethânia
vídeo 2
  


Informe-se sobre os criadores destas produções literárias e musicais nas seguintes ligações:
 
 
 
 
Assista a mais este belíssimo vídeo... vale a pena!!!

" Mensagem " / " Todas as cartas de amor.... " Maria Bethânia