Quem sou eu?
Eu, visto pelo
outro, nem sempre sou eu mesmo...
Quem sou eu? Eu vivo para saber.
Interessante descoberta que passa o tempo todo pela experiência de ser e estar
no mundo. Eu sou e me descubro ainda mais no que faço. Faço e me descubro ainda
mais no que sou. Partes que se complementam.
O interessante é que a matriz de tudo
é o "ser". É nele que a vida brota como fonte original. O ser
confuso, precário, esboço imperfeito de uma perfeição querida, desejada, amada.
De vez em quando, eu me vejo no que
os outros dizem e acham sobre mim. Uma manchete de jornal, um comentário na
internet ou até mesmo um e-mail que chega com o poder de confidenciar
impressões. É interessante. Tudo é mecanismo de descoberta. Para afirmar o que
sou, mas também para confirmar o que não sou.
Há coisas que leio sobre mim que
iluminam ainda mais as minhas opções, sobretudo quando dizem o absolutamente
contrário do que sei sobre mim mesmo. Reduções
simplistas, frases apressadas que são próprias dos dias em que vivemos.
O mundo e suas complexidades. As
pessoas e suas necessidades de notícias, fatos novos, pessoas que se prestam a
ocupar os espaços vazios, metáforas de almas que não buscam transcendências,
mas que se aprisionam na imanência tortuosa do cotidiano. Tudo é vida a nos
provocar reações.
Eu reajo. Fico feliz com o carinho
que recebo, vozes ocultas que não publico, e faço das afrontas um ponto de
recomeço. É neste equilíbrio que vou desvelando o que sou e o que ainda devo
ser, pela força do aprimoramento.
Eu, visto pelo outro, nem sempre sou
eu mesmo. Ou porque sou
projetado melhor do que sou ou porque projetado pior. Não quero nenhum dos
dois. Eu sei quem eu sou. Os outros me imaginam. Inevitável destino de ser
humano, de estabelecer vínculos, cruzar olhares, estender as mãos, encurtar
distâncias.
Somos vítimas, mas também vitimamos.
Não estamos fora dos preconceitos do mundo. Costumamos habitar a indesejada
guarita de onde vigiamos a vida. Protegidos, lançamos nossos olhos curiosos
sobre os que se aproximam, sobre os que se destacam, e instintivamente
preparamos reações, opiniões. O desafio é não apontar as armas, mas permitir
que a aproximação nos permita uma visão aprimorada. No aparente inimigo pode
estar um amigo em
potencial. Regra simples, mas aprendizado duro.
Mas ninguém nos prometeu que seria
fácil. Quem quiser fazer diferença na história da humanidade terá que ser
purificado nesse processo. Sigamos juntos. Mesmo que não nos conheçamos.
Sigamos, mas sem imaginar muito o que o outro é. A realidade ainda é base
sólida do ser.
Pe. Fábio de Melo
O inacabado que há em mim
Sou como o rio em
processo de vir a ser
Eu me experimento inacabado. Da
obra, o rascunho. Do gesto, o que não termina. Sou como o rio em processo de
vir a ser. A confluência de outras águas e o encontro com filhos de outras
nascentes o tornam outro. O rio é a mistura de pequenos encontros. Eu sou feito
de águas, muitas águas. Também recebo afluentes e com eles me transformo.
O que sai de mim cada vez que amo?
O que em mim acontece quando me deparo com a dor que não é minha, mas que pela
força do olhar que me fita vem morar em mim? Eu me transformo em outros? Eu
vivo para saber. O que do outro recebo leva tempo para ser decifrado. O que sei
é que a vida me afeta com seu poder de vivência. Empurra-me para reações
inusitadas, tão cheias de sentidos ocultos. Cultivo em mim o acúmulo de muitos
mundos.
Por vezes o cansaço me faz querer
parar. Sensação de que já vivi mais do que meu coração suporta. Os encontros
são muitos; as pessoas também. As chegadas e partidas se misturam e confundem o
coração. É nessa hora em que me pego alimentando sonhos de cotidianos
estreitos, previsíveis.
Mas quando me enxergo na
perspectiva de selar o passaporte e cancelar as saídas, eis que me aproximo de
uma tristeza infértil. Melhor mesmo é continuar na esperança de confluências
futuras. Viver para sorver os novos rios que virão. Eu sou inacabado. Preciso
continuar.
Se a mim for concedido o direito de
pausas repositoras, então já anuncio que eu continuo na vida. A trama de minha
criatividade depende deste contraste, deste inacabado que há em mim.
Um dia sou multidão; no outro sou
solidão. Não quero ser multidão todo dia. Num dia experimento o frescor da
amizade; no outro a febre que me faz querer ser só. Eu sou assim. Sem culpas.
Pe. Fábio de Melo



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