
A natureza do sofrimento
Sofremos e assim
nos firmamos como humanos
Quando o sofrimento bater à sua porta, é melhor abri-la. Resistir ou
negá-lo é apenas um jeito de fugir do que, mais cedo ou mais tarde, você terá
de enfrentar.
Sofrimentos são naturais na vida humana. Eles acontecem no percurso dos
fatos que nos envolvem.
Quando dizemos que algo é “natural”, nós o fazemos para demonstrar que
não foi acrescentado, mas faz parte da vida. É natural, porque pertence ou
refere-se às leis que nos regem e configuram a nossa condição humana. É
natural, porque pertence à ordem das coisas que nascem espontaneamente.
Um dos grandes nomes da filosofia contemporânea, o filósofo
Schopenhauer, num ensaio intitulado “Dos Fundamentos da Moralidade”, faz a
seguinte pergunta: “Como é possível que o sofrimento, que não é meu nem me
interessa, afete-me de imediato como se fosse meu e com força tal a ponto de
impedir-me a ação?”
A pergunta do filósofo é instigante. Para ele, o contato com o
sofrimento do outro nos recorda quem somos. O sofrimento é uma espécie de
espelho, por meio do qual nos enxergamos a partir daquele que sofre. Nele, o
nosso sofrimento está refletido em sua totalidade. Ao encontrarmos o outro e
sua precariedade, nele descobrimos a nossa verdade fundamental, nossa condição
expressa e viva em toda criatura.
O filósofo teoriza aquilo que todos experimentamos na prática. O sofrimento é uma das molduras que dão sustento à
nossa existência. É o tecido que envolve a vida.
Nós o experimentamos desde o momento de nossa concepção.
Pesquisas comprovam que muitas crianças, no processo de gestação, já sofrem com
a ansiedade e com alguma forma de sofrimento da mãe. Muitos medos e
inseguranças, manifestados ao longo da vida, parecem ter raízes em rejeições
acontecidas ainda na vida intra-uterina. Nem mesmo na proteção de nossa
primeira morada estamos livres do sofrimento.
O nascimento também é uma experiência de sofrimento. O parto não
é doloroso somente para a mãe, mas também para o filho.
Nascemos a partir de movimentos de contrações, isto é, em
movimentos de estreitamentos, compressões, encolhimentos. As contrações
proporcionam o movimento do ato de nascer. É por meio delas que a criança se
encaminha para o mundo. A mãe sofre o processo de expulsar o filho de seu
ventre. Toda a musculatura trabalha num mesmo objetivo – encaminhar a criança
para o nascimento.
Ao perceber o movimento que a retira do ventre, a criança também
inicia um processo de dor. Terá que sair da tranquilidade do útero, do lugar da
segurança, para passar pelo estreito caminho materno que a conduzirá ao novo
mundo.
Nascer já é uma forma de sofrer. Sofrimento físico e
psicológico. Físico, porque envolve o movimento de esforço muscular,
rompimentos, sangramentos. Psicológico, porque representa mudanças de fases
para a mãe e para a criança.
O caminho estreito, por onde chegamos ao mundo, já parece ser
uma metáfora do que será a nossa vida. Nem sempre as passagens são amplas,
facilitadas.
Outra questão que já nos coloca diante de sofrimentos
inevitáveis é a nossa condição de seres inacabados. Os especialistas nos
ensinam que o ser humano é o ser vivo que nasce mais incompleto. Nossa
incompletude nos expõe a muitos sofrimentos naturais, próprios de quem precisa
de cuidados para sobreviver.
Nascemos incapazes de ficar eretos por nós mesmos, diferente de
tantos outros animais que já se equilibram sozinhos logo após o nascimento.
Sofremos cólicas terríveis nos primeiros meses de nossa vida.
São os movimentos de ajuste que a natureza faz aos poucos, conduzindo-nos às
adaptações necessárias para cada fase.
Sofremos quando vivemos as distâncias dos que amamos. Sofremos
com os afastamentos temporários, as primeiras experiências de solidão, quando,
por necessidade comum à vida de todos nós, temos de ser cuidados por estranhos.
Sofremos e assim nos firmamos como humanos. Homens e mulheres
que recolhem, diariamente, o sentido de ser o que são e de sentir o que sentem.
O inegável é o sofrimento humano, pois este é natural.

SE É BOM OU SE
É MAU...
Quero contar
para vocês a estória que mais tenho contado - não aconteceu nunca, acontece
sempre. Um homem muito rico, ao morrer, deixou suas terras para os seus filhos.
Todos eles receberam terras férteis e belas, com a exceção do mais novo, para
quem sobrou um charco inútil para a agricultura. Seus amigos se entristeceram
com isso e o visitaram, lamentando a injustiça que lhe havia sido feita. Mas
ele só lhes disse uma coisa: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá."
No ano seguinte, uma seca terrível se abateu sobre o país, e as terras dos seus
irmãos foram devastadas: as fontes secaram, os pastos ficaram esturricados, o
gado morreu. Mas o charco do irmão mais novo se transformou num oásis fértil e
belo. Ele ficou rico e comprou um lindo cavalo branco por um preço altíssimo.
Seus amigos organizaram uma festa porque coisa tão maravilhosa lhe tinha
acontecido. Mas dele só ouviram uma coisa: "Se é bom ou se é mau, só o
futuro dirá." No dia seguinte seu cavalo de raça fugiu e foi grande a
tristeza. Seus amigos vieram e lamentaram o acontecido. Mas o que o homem lhes
disse foi: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá." Passados sete
dias o cavalo voltou trazendo consigo dez lindos cavalos selvagens. Vieram os
amigos para celebrar esta nova riqueza, mas o que ouviram foram as palavras de
sempre: "Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá." No dia seguinte o
seu filho, sem juízo, montou um cavalo selvagem. O cavalo corcoveou e o lançou
longe. O moço quebrou uma perna. Voltaram os amigos para lamentar a desgraça.
"Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá", o pai repetiu. Passados
poucos dias vieram os soldados do rei para levar os jovens para a guerra. Todos
os moços tiveram de partir, menos o seu filho de perna quebrada. Os amigos se
alegraram e vieram festejar. O pai viu tudo e só disse uma coisa: "Se é
bom ou se é mau, só o futuro dirá..."
Assim termina
a estória, sem um fim, com reticências... Ela poderá ser continuada,
indefinidamente. E ao contá-la é como se contasse a estória de minha vida.
Tanto os meus fracassos quanto as minhas vitórias duraram pouco. Não há nenhuma
vitória profissional ou amorosa que garanta que a vida
finalmente se arranjou e nenhuma derrota que seja uma condenação final. As
vitórias se desfazem como castelos de areia atingidos pelas ondas, e as
derrotas se transformam em momentos que prenunciam um começo novo. Enquanto a
morte não nos tocar, pois só ela é definitiva, a sabedoria nos diz que vivemos
sempre à mercê do imprevisível dos acidentes. "Se é bom ou se é mau, sé o
futuro dirá."
http://www.rubemalves.com.br/10mais_09.php
DESTINO
Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das coisas
O natural é o agradável só por ser natural.
Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno—
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar—
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.
Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.
Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência.
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer coisa que não fosse o Mundo.
24-10-1917
“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro.
Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de
Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993) - 92.

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