
Nunca é tarde para aprender
Isso me faz entender a lógica do amor de Deus

Hoje eu
senti saudade de ter pai. Vê-lo voltar para casa, observar o seu sorriso
tímido, seu cuidado com as pequenas coisas... Senti saudade de ser visto como
filho, já que na vida tenho que dar conta de tudo; muitas vezes, sozinho. Ser filho é um jeito interessante
de descansar da vida, de depender, de poder perder a hora, de esquecer o
compromisso, não cumprir o combinado. É uma forma justificável de realizar
pequenas transgressões. A bronca do pai vem sempre depois de tudo isso. Até
mesmo das broncas eu tive saudade. Do seu olhar severo me pedindo explicações,
repreendendo-me... Quanto amor havia naquelas repreensões! Só eu não sabia ver,
só eu não podia enxergar.
Tive
saudade de vê-lo chegar pelo portão principal com sua velha bicicleta. Um jeito
silencioso de andar,
de guardar as ferramentas e chamar pelo nome da minha mãe. Chamava por chamar,
só para anunciar sua chegada.
Eu
costumo dizer que minhas principais aulas de Teologia, eu as recebi no interior
da minha casa, lá, naquele lugar onde a vida nos permitia recolher pelos cantos
da casa os rastros do Sagrado. Deus esteve ali e olhou-me nos olhos do meu pai.
Deus esteve ali e comeu junto com a gente uma sopa de macarrão em noites de
chuva e frio.
Eu me
recordo das pequenas alegrias daquele tempo. Somadas, formam uma grande
felicidade no dia de hoje. Ainda que tudo fosse tão difícil naquela hora, hoje,
distante no tempo, a vida se reveste de novas cores, e o que antes era triste,
agora se transforma em saudade feliz.
Ter pai
é um jeito interessante de ter fé em Deus. Uma fé que não passa pelo horizonte das
formulações racionais, mas que nos surpreende com um impacto nos afetos. Uma fé
que nos rouba as palavras, as formulações, e que nos coloca na boca um balbucio
que diz sem dizer: Eu não sei dizer por que acredito, eu só sei acreditar.
Talvez seja por isso, que eu tenha acordado com tanta saudade de ter pai de
novo. Talvez eu esteja precisando voltar à fé simples... A fé que não precisa
explicar, que não sabe dizer, que sabe esperar... Não saber dizer é um jeito
interessante de cultivar a sabedoria. Jeito estranho, mas é.
Meu pai
era um homem que não sabia dizer muito. Tinha dificuldade com as palavras, e,
no entanto, era um homem sábio. A palavra demorava mais tempo na sua boca. Não
tinha pressa para dizer nada.
Palavra
que demora na boca, quando nasce, nasce mais sábia.
Aprendi isso com ele. Aprendi também que sempre é tempo de aprender. Ele, por
ser tímido, sempre teve dificuldades de demonstrar o seu afeto. Tinha um
coração imenso, mas não sabia demonstrar o que sentia. Somente no último ano de
sua vida, quando a doença chegou para levá-lo de nós, é que ele se tornou capaz
de externar o amor que tinha por cada um dos seus filhos.
Meu pai
viveu 63 anos. Precisou viver 62 para ter coragem de nos beijar sem receios.
Acho isso lindo. No último ano de sua vida, todo o afeto – trancado ao longo de
uma vida inteira – veio para fora. Isso me ensina, isso me faz entender a
lógica do amor de Deus.
Não
importa o tempo em que ele não soube amar. O que importa é o tempo em que soube
aprender. Deus não se prende ao que a gente não conseguiu. Ele prefere olhar
para o que a gente soube realizar!
Eu não
lamento os 62 anos em que tive o meu pai pela metade. Eu só quero me recordar
do último ano de sua vida, e dos dias felizes que ele me proporcionou. Quero é
recordar a grande lição que ele me deixou, antes de partir: Nunca é tarde para
aprender!
pe. Fábio de Melo


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